Ciência
Publicado em 27 de nov. de 2019 · Atualizado em 27 de nov. de 2019 · Leitura: 0 min
por Alessandra Ribeiro / Minas Faz Ciência

Eleita pela revista Nature uma das dez cientistas mais importantes, em 2016, e pela revista Time como uma das cem pessoas mais influentes do mundo, no ano seguinte, a médica Celina Turchi será uma dez personagens do segundo volume do e-book Mulher Faz Ciência, com lançamento previsto em fevereiro de 2020.  Ela teve atuação decisiva nas pesquisas que levaram à descoberta da associação entre a infecção pelo vírus da zika, no primeiro trimestre de gestação, e a epidemia de nascimentos de crianças com microcefalia nas regiões Nordeste e Centro-Oeste do Brasil, em 2015. Passaram-se quatro anos, desde a declaração de estado de emergência nacional e internacional em saúde pública.

Confira, a seguir, trecho da entrevista concedida pela pesquisadora visitante do Instituto Aggeu Magalhães, vinculado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Pernambuco, e membro titular da Academia Brasileira, na área de Ciências da Saúde.

MFC – A que a senhora atribui o pioneirismo do Brasil, especialmente do Grupo de Pesquisa em Microcefalia Epidêmica (Merg), do qual é integrante, na descoberta da relação entre o vírus da zika e a microcefalia? 

Havia urgência para se estabelecer as causas da microcefalia epidêmica identificada no Nordeste [o surto de casos microcefalia foi detectado inicialmente em Pernambuco, no segundo semestre de 2015]. A rapidez das respostas deveu-se, na minha opinião, à atuação de profissionais de saúde e de pesquisadores competentes com extensas redes de colaborações regionais e internacionais prévias. Assim, os projetos elaborados em conjunto foram concebidos e realizados em curto espaço de tempo.  O Instituto Aggeu Magalhães/Fiocruz-PE dispunha de laboratórios instalados, com especialistas em vírus transmitidos por mosquitos (arboviroses), que permitiram a realização dos testes em curto espaço de tempo. O Ministério da Saúde, ao reconhecer a gravidade da situação, declarou o Estado de Emergência em Saúde Pública de Interesse Nacional em novembro de 2015, o que exigiu colaboração intersetorial e possibilitou, também, que os recursos fossem alocados de forma rápida em pesquisa.  

MFC – Como foi acompanhar a epidemia de perto, enquanto médica? Lidar com as famílias, especialmente com as mães surpreendidas pelo nascimento de  crianças com malformações?

Meu papel, junto aos demais pesquisadores, foi caracterizar os casos e identificar o que causava as malformações congênitas. Durante essa epidemia, as circunstâncias eram não só inusitadas, como dramáticas. Estávamos lidando com uma situação muito peculiar, do ponto de vista da reprodução humana e da ética. Priorizamos entrevistar as mulheres, pós-parto, ainda na maternidade, com equipes de pesquisadoras de campo formadas por mulheres, muito bem treinadas para estabelecer um contato cuidadoso e respeitoso. Tudo era especial; o que me impressionou de imediato foi o olhar de indagação das mães e a generosidade em participar das pesquisas. Presenciei também equipes de saúde em maternidade e ambulatórios públicos compostas por pediatras, neonatologistas, neuropediatras, radiologistas e profissionais de laboratório dedicadas em prestar o melhor atendimento possível durante a situação de emergência. Foi uma situação de intensa mobilização dos profissionais de saúde, pesquisadores, gestores e da comunidade em geral, frente ao drama humano e ao potencial de expansão do surto para outros locais e países.

MFC – A senhora acredita que o fato de ser mulher e de haver outras mulheres envolvidas na pesquisa teve alguma influência na busca de resposta rápida para uma epidemia que afetou de forma mais drástica pacientes do sexo feminino e seus bebês?

Essa é uma pergunta difícil de responder. A equipe do Merg é composta, sim, por muitas pesquisadoras, mas também contamos com a dedicação de um grande número de pesquisadores. Acredito que haver na equipe pesquisadoras com experiência na área de reprodução humana, como a Dra. Thalia Velho Barreto de Araújo, docente da Universidade Federal de Pernambuco, e sua equipe, foi, sem dúvida, fundamental na elaboração e realização dos projetos de pesquisa. 

MFC- Qual é o estágio atual das pesquisas sobre a relação entre o vírus da zika e a microcefalia? Quais alternativas terapêuticas estão sendo empregadas para estimular o desenvolvimento das crianças que nasceram com a síndrome congênita? E quanto à possibilidade de uma vacina contra a zika?

Atualmente, fazemos parte do consórcio ZikaPlan, que congrega pesquisadores de mais 20 instituições de pesquisa do Brasil e da União Europeia. Especificamente, fazemos o acompanhamento clínico (relacionado ao crescimento e desenvolvimento neurológico, oftalmológico, cognitivo, etc.) das crianças que nasceram com a síndrome da zika congênita e das crianças cujas mães foram infectadas pelo vírus Zika durante a gestação. Há um esforço para estimulação das crianças com dificuldades de desenvolvimento neurológico e motor. As crianças diagnosticadas com a síndrome têm sido atendidas por equipes multiprofissionais, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida, reduzir as dificuldades motoras, as crises epilépticas e estimulá-las precocemente. Trata-se de prestar a melhor assistência possível,  dentro de protocolos de pesquisa, desde que haja consentimento das mães.  Há, no momento, vacinas candidatas, que ainda precisam ser testadas para avaliar os possíveis efeitos adversos e a sua eficácia nas populações. Vale ressaltar que o controle de mosquitos (Aedes aegypti), dentro e fora das residências, deve ser reforçado, bem como o uso de repelentes individuais, para redução dos casos de transmissão vetorial.

MFC – Quais são os desafios para dar continuidade a essas pesquisas?

O vírus Zika é considerado uma ameaça às populações humanas, principalmente em áreas urbanas do continente americano, pela gravidade das anomalias congênitas. A Organização Mundial da Saúde lista o vírus Zika entre os agentes infecciosos prioritários para pesquisas pelo seu potencial de transmissão, de surtos e de gravidade dos casos de síndrome congênita da zika. Dentre os desafios atuais, citamos a manutenção de equipes no contexto de contingenciamento de verbas para pesquisa, com redução de recursos para projetos de pesquisa e das bolsas para pesquisadores. Sem a continuidade, pesquisas sobre doenças novas ou conhecidas ficarão prejudicadas e a população sob risco. O consenso é que “pesquisa em saúde” faz parte da segurança das populações e deve ser considerada investimento e prioridade para o desenvolvimento dos países.

Texto publicado originalmente no site Minas Faz Ciência. Para ler outros textos como esse clique aqui.

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