Ciência
Publicado em 05 de jun. de 2024 · Atualizado em 05 de jun. de 2024 · Leitura: 0 min
por Júlia Rodrigues

No contexto de desastres ambientais cada vez mais frequentes e do crescimento da visibilidade de movimentos negacionistas que questionam a ciência e seus métodos, a cobertura jornalística especializada em ciência se reinventa. Entre seus desafios estão o combate à desinformação, a incorporação de práticas de fact checking e o entendimento da linguagem de programação. Para discutir as tendências que direcionam o futuro do jornalismo científico, a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) convidou para um bate-papo o jornalista especializado na cobertura de ciência, tecnologia e meio ambiente, Bernardo Esteves.


Graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Esteves é mestre em Engenharia de Sistemas e doutor em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Atualmente, é professor de jornalismo científico do Amerek, o Curso de Especialização em Comunicação Pública da Ciência da UFMG.

Como colaborador da revista piauí, escreve reportagens como Os seixos da discórdia, O Antropoceno já era e o O fabulador oculto que revelam os detalhes políticos, controversos e curiosos da ciência. Como apresentador do podcast A Terra é redonda, já em sua segunda temporada, aborda o negacionismo científico por meio de assuntos cotidianos.

Bernardo Esteves Crédito: Ana Alexandrino

No final do ano passado, lançou o livro chamado Admirável novo mundo: uma história da ocupação humana nas Américas pela Companhia das Letras propondo recontar a história dos primeiros povos americanos e ampliando a concepção sobre o tema com a contribuição de saberes ancestrais e multidisciplinares.

Confira a conversa.

Qual o diferencial entre o trabalho realizado por um jornalista especializado em ciências e aquele realizado por jornalistas que cobrem áreas tradicionais?
O jornalista de ciência é capaz de entender o processo de construção do conhecimento científico, de navegar pela literatura técnica e dialogar com os especialistas para explicar aos leitores o alcance, as implicações, as limitações e as incertezas dos resultados científicos.

Para você, quais são os desafios de se cobrir ciência, atualmente, no Brasil?
Gostaria de destacar a crise atravessada pelo jornalismo como um todo, e não apenas o jornalismo de ciência. Por conta da diminuição ao longo dos últimos anos da receita vinda tanto da publicidade quanto das assinaturas, muitos veículos estão enxugando suas redações e trabalhando com equipes menores. A crise do modelo de negócios do jornalismo ameaça não só os veículos jornalísticos, mas a sociedade como um todo, já que a imprensa cumpre o papel de fiscalizar as diferentes instâncias de poder.

Na sua perspectiva, quais temas deverão pautar o jornalismo científico no país nos próximos anos?
Creio que a inteligência artificial será um tema predominante no jornalismo de ciência, em função da centralidade que essa ferramenta tende a ocupar na sociedade. A ciência climática também deve manter um espaço central na cobertura, na esteira de eventos extremos como as enchentes no Rio Grande do Sul, que vão continuar acontecendo com maior frequência e intensidade.

Sabemos que a desinformação também se disfarça de falsas controvérsias. Na sua visão, qual o papel do jornalista de ciência diante deste cenário?
No cenário de proliferação de desinformação científica, o jornalista de ciência tem o papel de mostrar para os leitores de onde vem a força e a solidez do conhecimento científico, lançando luz sobre a forma como é produzido, mas também sobre suas limitações e incertezas, de forma a familiarizar o público com o processo científico.

Durante a sua participação no episódio “Dentro da tempestade: as chuvas e a política na tragédia do Rio Grande do Sul?”, do podcast Foro de Teresina, você declarou que “A emergência climática escancara para nós como essa divisão que a gente faz entre política e natureza, entre natureza e cultura nunca funcionou para descrever o mundo”. Na sua opinião, quais caminhos a cobertura jornalística precisa seguir diante da emergência climática?
A imprensa tem o papel de mostrar como os eventos extremos são estimulados por nossas escolhas como sociedade, e tem ainda a função de cobrar dos governantes políticas públicas que minimizem nossa contribuição para a crise climática, que levem à descarbonização da nossa economia e que preparem nosso país para fazer frente aos eventos climáticos mais intensos e frequentes.

As práticas de verificação e fact-checking ainda não são recorrentes em todos os veículos de comunicação. Fale um pouco de sua experiência nesse campo e de como as tecnologias podem contribuir para a segurança da informação.
Trabalhando em parceria com a equipe de checagem da revista piauí, tenho tido o privilégio de comprovar, na prática, os benefícios dessa ferramenta essencial para minimizar a ocorrência de erros no processo de apuração e escrita. Estou convencido de que a checagem é uma etapa imprescindível do trabalho jornalístico de qualidade.

Ainda sobre tecnologia, que desafios o jornalismo de dados nos impõe? De um lado, como produtores de informação, e, de outro, como audiência
O desafio maior imposto pelas grandes quantidades de dados públicos disponíveis consiste em encontrar ferramentas que permitam formular e responder perguntas jornalísticas que possam ser respondidas por esses dados e que atendam o interesse público.

Que veículos/projetos você considera que são referência em cobertura de ciência e tecnologia, atualmente, no Brasil e no Mundo? Poderia listar cinco?Vou listar cinco podcasts de ciência (ou que tratem de ciência de maneira transversal ou recorrente) que tenho gostado de ouvir. Sem ordem de preferência: Vinte mil léguas; Ciência suja; Rádio Escafandro; Radiolab (em inglês); Radio Ambulante (em espanhol).

Qual seu conselho para os jovens jornalistas que pretendem cobrir ciência?
Acredito que o domínio de linguagens de programação computacional tende a ser um diferencial para jornalistas. Profissionais que tiverem familiaridade com essas ferramentas terão mais autonomia em suas investigações jornalísticas, por isso recomendo que os jornalistas em formação – não só aqueles que pretendem cobrir ciência – estudem programação.

* Conteúdo produzido em parceria com o Amerek – Curso de Especialização em Comunicação Pública da Ciência da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

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