Institucional
Publicado em 04 de abr. de 2019 · Atualizado em 04 de abr. de 2019 · Leitura: 0 min
por Verônica Soares - Minas Faz Ciência

Pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), estudam a taxonomia — ciência que descreve as espécies — das plantas sempre-vivas. O objetivo é conhecer sua diversidade e evolução.

A equipe é coordenada pela professora Lívia Echternacht Andrade, do Laboratório de Sistemática Vegetal do Departamento de Biodiversidade, Evolução e Meio Ambiente.

Sempre-vivas no Brasil

No Brasil, existem 630 espécies de sempre-vivas, principalmente nos estados de Minas Gerais, Bahia e Goiás.

A Serra do Espinhaço, onde se localiza o município de Diamantina (MG), abriga o Parque Nacional das Sempre-Vivas. Lá é possível encontrar mais de 2 mil espécies de planta, não apenas sempre-vivas.

Os pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) desenvolveram estudos que buscam responder como essa multiplicidade evoluiu no espaço e no tempo. Há grupos de espécies que são típicas dos brejos, outras, dos areais. Segundo a professora Lívia, há um projeto em andamento onde são estudadas cerca de 30 espécies encontradas no Parque Estadual do Itacolomi e na Serra de Lavras Novas.

Outra pesquisa investiga um conjunto de 29 espécies ameaçadas de extinção, localizadas no Parque do Itacolomi. E por que estudar a evolução das sempre-vivas? Lívia conta que os estudos sobre as árvores evolutivas (filogenia) são recentes, e foram consolidados nos últimos 20 anos, no Brasil, em função do processo de expansão das Universidades e da pós-graduação, realizados nas últimas décadas. “Preservar as linhagens evolutivas é preservar o potencial de evolução, o futuro da biodiversidade”, detalha a professora.

Patrimônio agrícola mundial e função social

As sempre-vivas são muito utilizadas na produção de arranjos e fazem parte do mercado de flores ornamentais da região do Espinhaço desde 1930. Elas são coletadas por diversas famílias da região, conhecidas como “apanhadores de flores sempre-vivas “, e são um importante meio de subsistência para essas pessoas.

No entanto, devido ao extrativismo acelerado dessas plantas, causado por seu baixo custo no mercado, à expansão urbana, à mineração e à agricultura, muitas espécies estão ameaçadas de extinção. Diante disso, foram desenvolvidos diversos projetos de manejo controlado do ambiente e foi criada a Associação de Artesãos de Sempre-Vivas, visando promover um espaço de discussão e planejamento coletivo do cultivo das plantas.

Atualmente essas comunidades de apanhadores são referência internacional e foram indicadas ao programa da FAO/ONU como “Patrimônio Agrícola Mundial” pela Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (Codecex). A organização social que representa regionalmente as comunidades apanhadoras de flores sempre-vivas, com o apoio de pesquisadores. “O artesanato das sempre-vivas pode favorecer a conservação das espécies, se feito de forma manejada e sustentável “, diz Lívia.

Pesquisa básica

A professora destaca que ainda falta muita pesquisa de base neste campo da Botânica: “Quando vamos em áreas de campo rupestre pouco coletadas, muitas vezes encontramos espécies novas para a ciência, nunca descritas. Isso mostra o quanto a pesquisa sobre o tema está começando, é preciso conhecer o fundamental, onde elas ocorrem, como elas são. Isso é pesquisa básica”.

O grupo de pesquisa coordenado por Lívia tem a expectativa de estender este trabalho de taxonomia para que haja um levantamento sólido, principalmente de gêneros que têm uma diversidade enorme e são pouco conhecidos. “Desde os anos 2000, aumentou muito o número de pessoas trabalhando nessa área. Mas ainda temos muito a fazer porque, antes disso, o trabalho mais consolidado sobre o tema era do começo do século XX“, detalha.

Importância das coleções científicas

Para a consolidação dos estudos, é de suma importância também a criação e preservação de coleções científicas que, no caso das plantas, são arquivadas nos herbários. “Pegamos os exemplares na natureza, desidratamos, catalogamos, e eles ficam arquivados em herbários para acesso de outros pesquisadores”, explica a professora.

O trabalho de criação e manutenção de herbários é importantíssimo para a pesquisa em Botânica, inclusive porque as áreas naturais vêm sendo degradadas a ponto de muitas espécies não existirem mais na natureza.

Em Minas Gerais, o maior herbário é o da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mas a UFOP tem uma importante coleção histórica, “uma das mais antigas do Brasil e com certeza a mais antiga de Minas Gerais”, finaliza Lívia.

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