
Entre aqueles que acreditam que há princípios imutáveis e outros que sustentam que coisa alguma seja estável e permanente, eis que surge a corrente que reconhece coisa alguma como definitiva: a Ditadura do Relativismo. “Hoje já falaríamos em pós-verdade ou queda da pretensão de objetividade da verdade”, explica o coordenador do projeto apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), que estudou a relação entre Religião, Relativismo e seus impactos na sociedade, o professor de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica (PUC/Minas), Márcio Paiva.
Nele, Paiva examinou o relativismo nas suas dimensões ética e epistemológica, para depois procurar o papel da religião na contemporaneidade. Como resultado observou a afirmação da inevitável relatividade histórico-cultural do ser humano como ser no mundo e do papel da crença deste neste contexto, levantando curiosos questionamentos. “Nos perguntamos se a religião, hoje, não seria apenas mais um detalhe da fragmentação da civilização ocidental ou um reflexo do ocaso do bem universal”, pontua. Afinal, afirmações universalistas nem sempre respeitam a diferença e, não poucas vezes, comentem violência contra a mesma.”, complementa.
De acordo com o pesquisador, o objetivo do projeto foi justamente compreender o que significa ser no tempo e se é possível, e em que sentido, entrever um fio condutor que reúna o que a modernidade separou: Oriente e Ocidente, homem e natureza e, sem transgredir os limites e a dignidade das várias culturas, vislumbrar dialogia e conjugação em torno do humano. Para Paiva, o ser humano é um todo com o seu entorno: semelhantes, animais, plantas e meio ambiente. “A estrutura da vida é ontologicamente interdependência. Portanto, não se pode matar ou destruir, sem ter graves consequências”, explica Paiva.
Questionado sobre recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que deferiu a favor do sacrifício de animais em cultos religiosos, causando divergências de opiniões em grupos religiosos ou não, Paiva explica que toda religião tem um a tríplice perspectiva que a sustenta: doutrina, moral e simbólica. “A vivência ética da compaixão supera todo sacrifício. Trago aqui R. Girard quando afirma que o cristianismo modernizou a religião, acabando para sempre com a ideia do bode expiatório, ou seja, do sacrifício de animais em outros termos, quando de uma vez por todas há o sacrifício do filho de Deus, assumindo assim toda a tradição ritualística.”, pontua. Mas não se pode julgar a simbólica de uma religião a partir de fora simplesmente. A religião faz parte da dignidade da consciência humana. “Aí, em última instância, permanece o Direito. Além disso, assim como tantos contemporâneos, julgo que os animais são também sujeitos de direitos, dentre eles a vida”, complementa.
De acordo com Paiva, os dogmas, considerados como verdades imutáveis, deixam-se traduzir em várias linguagens, pois fazem parte da abertura da natureza humana. “Já as diretrizes podem ser mudadas culturalmente e com a evolução humana só dependem de cada comunidade um querer e se adequar”, pontua. “Creio que Deus se gloria quando somos responsáveis pela vida, pelo outro, pelo meio ambiente e não quando matamos animais em sacrifício ou quando praticamos qualquer rito neste sentido”, finaliza.
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