Da chegada do homem à Lua às câmeras de celular

Bárbara Teixeira - 20-07-2023
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“A astronomia tem um aspecto cultural muito importante porque nos coloca diante do universo”. Paulo Sérgio Lacerda Beirão, presidente da FAPEMIG. 

Nesta quinta-feira, 20 de julho, celebra-se 54 anos da primeira viagem do homem à Lua. A expedição trouxe avanços e novas questões para o campo da ciência, além de aproximar as pessoas do espaço e de perspectivas que antes eram consideradas distantes do cotidiano. O Projeto Apolo, demandou intenso estudo científico para o desenvolvimento de equipamentos de auxílio à vida para levar e trazer de volta o astronauta com segurança. 

O projeto se orientou em estudos prévios astronômicos e pôde ser colocado em prática por meio de um amplo investimento do Governo dos Estados Unidos. O professor Carlos Villani, do Núcleo de Astronomia do Espaço do Conhecimento da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que a Astronomia considera “o espaço como um laboratório a céu aberto” e por isso pode ser considerada a mãe das ciências estudadas hoje.  

“A astronomia que aprendemos hoje nas escolas tem origem Greco-romana, estudamos suas constelações e influências. Mas temos no Brasil culturas indígenas com uma riqueza inimaginável, que identificam outras constelações, outras formas de agrupar as estrelas e de significar alguns eventos, principalmente aqueles relacionados à subsistência do próprio povo”. De acordo com o professor, esses povos sabiam quais eram as melhores épocas de plantar pela observação, por exemplo, do horário de nascimento de determinadas estrelas. 

É possível dizer que as observações levaram às expedições espaciais e consolidaram a disciplina no mundo como meio de explicar alguns fenômenos. “A partir da observação dos povos originários acerca dos astros, da influência nas plantações, nas estações do ano e da curiosidade do homem de buscar conhecimento é que se desenvolveram outras ciências”, comenta o presidente da FAPEMIG, Paulo Beirão.  

A chegada à Lua 

“Esse é um pequeno passo para o homem, mas um gigantesco salto para a humanidade”. Neil Armstrong, primeiro astronauta a pisar na Lua. 

Até o início do século XX, as disciplinas de biológicas ministradas nas escolas, desenhos e filmes de ficção científica ainda mostravam a exploração espacial como algo distante e inalcançável. Apesar do fascínio pelo espaço e seus mistérios, o campo da Astronomia não tinha repercussões no dia a dia das pessoas.  

Nesse sentido, a chegada do homem à Lua foi um marco que exigiu alto investimento e desenvolvimento tecnológico que é aproveitado até os dias atuais. Desde então, além de astronautas conseguirem viajar ao redor da Terra, viagens tripuladas com civis já estão sendo desenvolvidas e até mesmo a ida do homem à Marte é planejada para os próximos anos. 

Mas além do espaço, a viagem também teve impactos na vida na Terra. Desde aparelhos sem fio, termômetro digital, panela de teflon, lentes de contato, códigos de barra, GPS, fraldas descartáveis, até os tanques de combustíveis dos carros e as roupas usadas por bombeiros atualmente foram desenvolvidos com tecnologia pensada, primeiro, para viagens espaciais. Hoje, todos esses itens são artefatos básicos do dia a dia. 

“Então qual seria o benefício dessa viagem? Bem, o maior de todos foi enfrentar o desafio e, a partir daí, gerou-se uma série de produtos que ainda não existiam e que estão hoje o tempo todo conosco. No âmbito da alimentação, por exemplo, muito dos alimentos embalados e eletrodomésticos utilizados foram criados durante a exploração espacial. No caso das telecomunicações, foi necessário desenvolver equipamentos e linhas de contato que fossem compactos e gerassem comunicação a milhões de quilômetros”, destaca Beirão. 

Em paralelo, devido ao alto valor necessário para essa viagem, o Projeto Apolo, que se iniciou em 1962, terminou em 1972, mas deixou um legado que proporcionou o desenvolvimento de tecnologias ainda de exploração do espaço e da Lua. Sondas espaciais, telescópios, satélites e robôs foram desenvolvidos e enviados para continuar os estudos sobre o universo. 

“Existem muitas sondas orbitando a Lua e fazendo imagens de alta resolução. Com as buscas realizadas por elas, ainda descobrimos que é possível encontrar água lá. A ideia, agora, é fazer da Lua um ponto de parada para explorar outros planetas, como Marte”, exemplifica Nathalia Fonseca, assessora do Núcleo de Astronomia do Espaço do Conhecimento UFMG. 

E o que de fato isso representa? 

“O conhecimento, mesmo sendo originado de algo que não tenha aplicação imediata, é um valor que pode ter vários tipos de aplicações”, Paulo Sérgio Lacerda Beirão, presidente da FAPEMIG. 

Todas essas inovações mostram que a ciência e a própria Astronomia fazem parte do cotidiano da sociedade. A viagem à Lua influenciou gerações de pesquisadores e astronautas e, até hoje, cativa a imaginação e os sonhos de crianças e adolescentes. Do ponto de vista teórico, o professor Carlos Villani explica que muito se ganhou e se vem aprendendo com os estudos e trabalhos desempenhados acerca dos astros. Como docente e pesquisador do Colégio Técnico (Coltec) da UFMG, ele desenvolve projetos de pesquisa em colaboração com adolescentes, que recebem bolsa de Iniciação Científica Júnior da FAPEMIG, e aprimoram o ensino da disciplina dentro das escolas. 

“Há um esforço muito grande de mostrar a Astronomia como uma ciência que é absolutamente acessível a todos. É difícil ensinar uma pessoa a observar, mas podemos ensiná-la a fazer observações relevantes. Esse olhar guiado é interessante para levarmos às escolas: ensinar o aluno a fazer observações sistemáticas e como registrar esses dados. Com isso estamos investindo na construção de instrumentos para o ensino na Astronomia”, destaca. Os equipamentos necessários são acessíveis e demonstram aos estudantes, de forma clara, como seria o alinhamento dos planetas ou o eixo da Terra, por exemplo. 

Já do ponto de vista prático, Nathalia Fonseca exemplifica que as missões espaciais geram demandas às indústrias e as tecnologias desenvolvidas são aplicadas ao dia a dia. “Muita gente pensa que a NASA produz tudo que é utilizado em uma exploração espacial, mas, na verdade, ela gera a demanda e os pesquisadores precisam desenvolver os melhores produtos. Como exemplo, temos as câmeras de celular de alta resolução que foram desenvolvidas para serem acopladas às sondas e captarem imagens de qualidade do espaço. O isolante térmico que é utilizado em casas ou até em vestimentas também foi desenvolvido para uma missão espacial”. No Brasil, por exemplo, possuímos diversos experimentos da agricultura que se basearam em observações astronômicas e contribuíram para o melhoramento do solo e de cultivares.