Nossa homenagem ao Prof. Ângelo Machado

Minas Faz Ciência - 07-04-2020
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Foto: Foca Lisboa / UFMG

Além de publicar mais de 50 livros, das quais a maioria eram para crianças, na medicina Machado mudou o conceito sobre as lesões do sistema nervoso autônomo na doença de Chagas

Faleceu ontem (6), em Belo Horizonte, o professor Ângelo Machado. Entomologista, médico, ambientalista e escritor, ele foi uma figura ímpar no cenário da pesquisa e da divulgação científica em Minas Gerais e no Brasil.

"Fala-se muito no ideal da união de Arte com Ciência. Ângelo Machado conseguiu fazer isso de forma magistral, agregando ainda Educação. Sua dedicação em estimular nas crianças a criatividade e o amor pela natureza e pelos livros fará falta. Um humor refinado e saboroso, muitas vezes rindo de si próprio, era sua marca em todas as suas múltiplas atividades. Tive o privilégio de ser seu aluno, e a clareza de suas ideias, temperadas com este humor, faziam de suas aulas um deleite. Obrigado, Angelim (como era carinhosamente chamado por seus alunos) pelo seu exemplo e seu legado", escreve Paulo Beirão, diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da FAPEMIG.

"Como presidente da FAPEMIG, amigo e seguidor, prestamos aqui nossas condolências aos familiares do Prof. Ângelo Machado. Pessoa fantástica como professor, médico, escritor, estudioso das libélulas e, além de tudo, um palestrante extraordinário. Prendia a atenção de todos; bem humorado, ensinava e inspirava a todos. Um ser humano para ser sempre lembrado", expressa Evaldo Vilela, presidente da Fundação.

Minas Faz Ciência

“Ao chegar na única casa cheia de árvores e plantas de uma das avenidas mais movimentadas de Belo Horizonte, já nos esperava na varanda uma das figuras mais simpáticas e divertidas do meio científico brasileiro.” Assim, em em 2009, Minas Faz Ciência, projeto de divulgação científica da FAPEMIG, registrava o encontro com o professor Ângelo Machado.

Este não foi nosso único e marcante momento com esta pessoa incrível. Em 2015, lá estava ele, novamente, encantando as páginas impressas da nossa edição infantil. Confira aqui.


E, novamente, no podcast Ondas da Ciência há oito anos. Para ouvir clique aqui e aqui.

Paixões

Ao ser agraciado como professor emérito em 2005, declarou seu amor pela Universidade Federal de Minas Gerais.

“Tenho 52 anos de UFMG, pela qual sou um apaixonado. Esse título é muito importante para mim, pois vai me permitir continuar oficialmente na universidade de que gosto”.

Aposentado compulsoriamente em 2004, mantinha seu vínculo com a instituição como professor voluntário, recusando-se a ser incluído na categoria de “inativo”.

“Gosto de vir aqui todos os dias, entre outros motivos, porque o campus está cada vez mais lindo”, declarou.

Entre suas descobertas relevantes no campo da medicina, Ângelo Machado mudou, nos anos 1960, o conceito então existente sobre as lesões do sistema nervoso autônomo na doença de Chagas.

O professor também era escritor e dramaturgo, com mais de 50 de obras publicadas, em sua maioria para crianças, e seis peças de teatro encenadas. Em 1993, ele foi agraciado com o Prêmio Jabuti.

Foi membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Mineira de Letras, presidente do Conselho Curador da Fundação Biodiversitas, ONG especializada na conservação de espécies ameaçadas de extinção, e secretário regional e integrante do conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Na área de entomologia, Ângelo Machado dedicou-se ao estudo das libélulas. Descreveu 98 espécies e 11 gêneros novos desses insetos. Foi homenageado com seu nome em 56 espécies de animais.

As libélulas, por sinal, eram uma das paixões do professor. Ele reuniu uma coleção com 35.250 exemplares de 1.052 espécies ao longo de seis décadas. Em 2015, doou o acervo à UFMG.

A outra paixão de sua vida era a esposa, a professora Conceição Machado, que conheceu na década de 1960. E

“Comecei a trabalhar com uma aluna, Conceição Ribeiro da Silva, e logo a gente descobriu que gostava um do outro. Fizemos um trabalho de namoro, de noivado, de filho, de neto (risos). Durante 30 anos, pesquisamos o sistema nervoso da Doença de Chagas. Depois, fui para a zoologia, e ela manteve o laboratório. Do ponto de vista científico, ela foi mais ativa que eu, formou 32 mestres e doutores. Mesmo atuando em áreas diferentes, a gente se ajudava. Mas, no final, a área dela foi complicando tanto que acabei me afastando de vez”, declarou ele, na mesma entrevista.

Ângelo Machado também dedicou seu talento e energia à popularização da ciência. No anos 1980, ele participou do grupo que elaborou o projeto da revista Ciência Hoje das Crianças.

E foi no Laboratório de Entomologia, coordenado por ele no ICB, que, durante muitos anos, funcionou a sucursal mineira da Revista Ciência Hoje, comandada pelo jornalista Roberto Carvalho.

Homenagens

“O que falar sobre o professor Ângelo Machado, o que falar sobre essa pessoa encantadora, sobre esse médico, zoólogo, ambientalista, escritor, pesquisador e professor emérito da nossa Universidade? Como prestar uma homenagem à altura a essa pessoa adorável que sempre carregou consigo a marca da inventividade e da criatividade, do compromisso com a vida, com a ciência e com a UFMG, com a alegria? Ele deixa uma lacuna, um hiato na vida de todos nós, um espaço impossível de ser preenchido”, afirmou, emocionada, a reitora Sandra Regina Goulart Almeida. “Nosso compromisso é o de manter acesa a centelha inspiradora que nosso querido Ângelo nos deixa. Vamos sentir saudades, muitas saudades”, acrescentou.

“Adeus, querido Ângelo Machado! Muito obrigado por tudo que fez pela ciência, pela educação, pela cultura, pelo meio-ambiente e pelas crianças brasileiras, por nossa gente e nossa natureza. E por nos ter feito a todos que o conhecemos, que aprendemos com você, que o lemos ou escutamos, pessoas mais alegres, melhores e mais humanas!”, Ildeu de Castro Moreira, Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. 

Ângelo Machado deixou quatro filhos: Lúcia, Flávia, Paulo e Eduardo.