Pesquisa investiga coronavírus no esgoto de BH

Mariana Alencar / Minas Faz Ciência - 16-04-2020
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Pesquisa investiga a presença do novo coronavírus no esgoto de Belo Horizonte (Foto: Thiago Bressani /Arquivo pessoal)


Estudos publicados em revistas internacionais reportaram que pacientes diagnosticados com a Covid-19 apresentaram RNA do Sars-CoV-2, o novo coronavírus, em suas fezes.

Isso foi um indício de que apesar de ser uma doença respiratória, a Covid-19 pode ter sua transmissão via feco-oral. Outros estudos encontraram, ainda, o vírus em esgotos da cidade de Amsterdã, o que deixou em alerta pesquisadores de vários países inclusive o Brasil.

Diante dessas informações, pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) ETEs Sustentáveis decidiram estudar a ocorrência do vírus na rede de esgotos de Belo Horizonte. Carlos Chernicharo, coordenador do INCT, explica que a proposta é mapear as regiões da capital mineira com intuito de identificar a incidência do vírus em cada um dos pontos estudados.

“O nosso estudo não está preocupado com o eventual risco de uma pessoa contrair a doença pelo esgoto, pois o risco é baixíssimo e não há nenhuma evidência de que isso pode acontecer. Nossa pesquisa partiu da seguinte ideia: se o vírus está presente no esgoto, então a gente tem condição de mapear quais as regiões da cidade há maior ou menor número de pessoas infectadas”, explica Chernicharo.

Auxílio na tomada de decisão
Segundo o Ministério da Saúde há, atualmente, uma subnotificação nos casos de Covid-19 no Brasil. Isso porque os testes que identificam a doença são escassos. Além disso, há casos de infectados assintomáticos, o que dificulta o diagnóstico da doença.

A pesquisa surge, portanto, como uma possibilidade de estimar os casos de Covid-19 por áreas em Belo Horizonte. Durante pelo menos 6 meses, a equipe de pesquisadores realizará coletas ao longo das bacias do Ribeirão Arrudas e Ribeirão do Onça.

Nessas regiões, a coleta será realizada em pontos estratégicos para que seja medida a incidência do vírus no esgoto em localidades com populações de alta e baixa rendas. Também serão coletadas amostras em interceptores de esgoto situados nas proximidades dos hospitais de referência para o tratamento da Covid-19, como o Hospital das Clínicas da UFMG.

Em seguida, as amostras serão analisadas em laboratório para identificação de presença de vírus. Assim, serão criados mapas que mostrarão em quais partes da cidade a ocorrência da doença é maior. O estudo pretende realizar, também, um acompanhamento da situação até o fim do ano, para que haja um monitoramento do avanço ou regressão da doença.

“Com o monitoramento do vírus no esgoto, há possibilidade de identificar as áreas onde o vírus está mais ou menos presente. Essa informação pode auxiliar na tomada de decisão do poder público em relação às medidas de isolamento social. Por exemplo, se em uma determinada região identificarmos o crescimento da presença do vírus, é sinal de que ali o isolamento precisa ser reforçado. E o contrário também pode acontecer. A diminuição do vírus no esgoto pode apontar para uma flexibilização do isolamento”, detalha o coordenador.

Pesquisa em andamento
As primeiras coletas foram realizadas na terça-feira, dia 14, e o primeiro lote já foi enviado para o Laboratório de Microbiologia do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental, da Escola de Engenharia da UFMG, para processamento.

A perspectiva é que a partir de maio sejam liberados, semanalmente, mapas dinâmicos que mostram a evolução da ocorrência do vírus no esgoto ao longo do tempo nos diferentes pontos da cidade.

Embora existam outras pesquisas que investigam a incidência de microrganismos no esgoto, o estudo do INCT ETEs Sustentáveis para detecção do novo coronavírus é inédito no Brasil até o momento. A pesquisa conta com parceiros importantes e estratégicos como a Secretária de Estado de Saúde de Minas Gerais, a Copasa,  o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM) e a Agência Nacional de Águas (ANA).

Com uma equipe de 12 pessoas, entre eles os subcoordenadores do INCT/UFMG, Juliana Calábria e César Mota, a pesquisa tem apoio financeiro da FAPEMIG e do CNPq.