Ciência
Publicado em 24 de abr. de 2025 · Atualizado em 24 de abr. de 2025 · Leitura: 0 min
por Bárbara Melo

Quando se trata de pesquisadores altamente qualificados para o desenvolvimento de pesquisas em Minas Gerais, é possível identificar um obstáculo: um déficit considerável de mão de obra. O entrave é observado, entre outras áreas, na Engenharia, como aponta a pesquisadora Regina Moura, coordenadora do Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias em Engenharia (LTAD) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

“Na volta da pandemia, o nível de interesse dos estudantes pela pesquisa decaiu bastante”, destaca. “Temos, hoje, um déficit de vagas gigantesco dentro da Engenharia. […] Na graduação, já percebemos que o número de pessoas interessadas está reduzindo, e quando chega na pós-graduação, o número é menor ainda. E, se eles não chegam à pós-graduação, com certeza não vamos ter pós-doutores”, completa.

Para combater esse cenário, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) vem investindo em ações que vão desde o reajuste dos valores das bolsas ofertadas até oportunidades de fomento importantes, como a chamada 04/2025 – “Fomento a bolsas de pós-doutorado para atuação de doutores em projetos de pesquisa científica, tecnológica e de inovação no estado de Minas Gerais”. Serão ofertadas 100 bolsas, distribuídas entre 2025 e 2026, somando um total de R$ 25,2 milhões.

“Reconhecemos o desafio que temos nas mãos de fortalecer a formação de recursos humanos e impulsionar a pesquisa em Minas Gerais. A chamada para implementação de bolsas de pós-doutorado surge de uma demanda da própria comunidade científica mineira e nossa expectativa é contribuir para a fixação de talentos mineiros no Estado”, destaca Carlos Arruda, presidente da FAPEMIG.

O LTAD trabalha com testes em escala real com materiais e sistemas para entender o processo de desgaste e contaminação. Créditos: Júlia Rodrigues

Desvalorização da academia

Na opinião de Regina Moura, a escassez de mão de obra para a pesquisa se agravou após a pandemia, quando o interesse dos alunos por uma formação acadêmica mais longa e exigente sofreu um declínio significativo. Soma-se a isso a desvalorização da formação acadêmica, a dificuldade de atrair estudantes para os cursos de graduação que afetam diretamente a continuidade dos programas de pós-graduação, e as políticas de incentivo e permanência de talentos no meio científico. Como reflexo, há falta de pós-doutores nos centros de pesquisa.

Para a coordenadora, a competitividade com o mercado de trabalho — que oferece melhores salários — é outro obstáculo difícil de vencer. Porém, também o mercado vem sofrendo com essa escassez. “A indústria consegue pagar melhores salários, coisa que a gente não consegue fazer na academia porque dependemos de bolsas e de órgãos de fomento”.

O LTAD é parte da uma unidade Embrapii sediada na UFU e, por isso, tem contato direto com empresas para o desenvolvimento de pesquisas aplicadas. “Frequentemente, por estarmos na academia, as pessoas que estão em empresas perguntam como está a situação da nossa equipe, porque nas empresas está faltando gente e quando chega alguém, está muito despreparado. Por isso, acho que essa questão da mão de obra qualificada tem se tornando um problema para todo mundo: para a indústria e a academia”, destaca a coordenadora.

Incentivo financeiro e acadêmico

Outro desafio enfrentado pela academia é a própria concorrência com o mercado de trabalho. Apesar de, por vezes, trabalharem em parceria para encontrar soluções tecnológicas e inovadoras, os salários oferecidos no mercado são mais atrativos. “A gente [academia] não consegue cobrir esses valores porque dependemos de bolsas. Dependemos de todos os órgãos de fomento, então é uma concorrência desleal. E isso me preocupa muito”, conta Regina Moura.

Nos últimos anos, a FAPEMIG tem buscado reverter esse quadro com ações como o aumento do valor das bolsas de pós-doutorado e a flexibilização de regras para acúmulo de atividades. Atualmente, os bolsistas podem conciliar a pesquisa com outras fontes de renda, um avanço apontado pela pesquisadora como fundamental. “Essa flexibilização permite que as pessoas vejam a bolsa como algo atrativo. É um diferencial. Mesmo que o valor não se iguale ao do mercado, já ajuda a complementar a renda”.

As bolsas de pós-doutorado, que agora giram em torno de R$ 9 mil mensais, incluem também um valor adicional de auxílio para desenvolvimento de projetos. A iniciativa visa não apenas atrair, mas também reter pesquisadores no ambiente acadêmico. “Hoje, eu tento manter os colaboradores com dois pilares: qualidade de vida e incentivo financeiro. E as bolsas contribuem para isso”, destaca.

Ainda assim, a pesquisadora enfatiza que as bolsas são somente uma parte do incentivo: é preciso que as instituições de ensino superior também se atualizem. Ela defende que os programas de pós-graduação adotem formatos mais flexíveis, como disciplinas híbridas, para facilitar a vida dos profissionais que desejam continuar estudando. “Se a universidade não flexibilizar também, não adianta a FAPEMIG mudar. Já passou da hora de a academia se adaptar a essa nova realidade”.

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