Inovação
Publicado em 20 de mar. de 2025 · Atualizado em 20 de mar. de 2025 · Leitura: 0 min
por Bárbara Melo

Financiadas pela FAPEMIG, as pesquisas sobre o café vêm ganhando aliados como a Inteligência Artificial e a Internet das Coisas

Tradicionalmente, Minas Gerais é um dos maiores produtores e exportadores de café no Brasil. Somente em 2024, o Estado foi responsável por 52% da produção nacional, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Não à toa, as pesquisas financiadas em 2024 pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) da área de Ciências Agrárias, movimentaram R$ 38,9 milhões, dos quais R$ 23 milhões foram para pesquisas com a temática do café.

Entre os trabalhos desenvolvidos, se destacam as ações realizadas pelo grupo de pesquisa “Da semente à xícara”, coordenado pelo professor e pesquisador Matheus Gomes, do Instituto de Biotecnologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), campus Patos de Minas, junto dos docentes Pedro Bertarini, Líbia Santos e Laurence Amaral, também da Instituição.

Foto: Grupo “Da semente à xícara” é responsável pela produção do Café Porandu, fruto de pesquisas e anseios para a democratização do café especial. Créditos: Marketing “Da semente à xícara”

O grupo, composto por professores, técnicos, pesquisadores e estudantes de diversas áreas, incluindo Biotecnologia, Engenharia de Alimentos, Ciência da Computação e Engenharia Eletrônica e deTelecomunicações, apostou na interdisciplinariedade para aprimorar os grãos e a bebida tanto para os produtores, quanto para os consumidores de café.

Um dos carros-chefes do projeto é a aplicação da Inteligência Artificial e da Internet das Coisas para otimizar a produção e o sabor dos cafés especiais. “Nosso objetivo é inspirar e democratizar o uso de tecnologias nos cafés especiais e, consequentemente, o seu consumo pela população. O projeto tem algumas ações que são disruptivas para o mercado, o que nos permite entregar ao produtor o melhor processo para que ele consiga encontrar o melhor perfil daquele café”, explica Gomes.

Da semente à xícara

O nome do grupo de pesquisa não é em vão: os trabalhos desenvolvidos começam no campo e chegam até os consumidores. “Na semente, nós pesquisamos as questões da microbiota, o terroir presente na propriedade, entre outras questões. A partir deste conhecimento, aplicando outros processos pós-colheita bem direcionados, nós conseguimos entregar um café de qualidade na xícara do consumidor”, conta a pesquisadora Líbia Santos, também coordenadora do projeto e professora da Faculdade de Engenharia Química da UFU.

Por parte da análise de dados pré e pós-colheita, Matheus Gomes representa um pilar essencial para a entrega de soluções tecnológicas para a tomada de decisão dos produtores. Ele conta que, antes de iniciar o projeto, já trabalhava com genômica e transcriptômica, áreas que analisam o material genético dos seres vivos, mas que são dados intangíveis para os produtores.

“A partir de 2019, começamos a juntar essas expertises com análises pós-colheita, Inteligência Artificial, Internet das Coisas, Biologia Molecular e Biotecnologia, e fomos para dentro das fazendas entender quais eram as dores dos produtores e como podíamos ajudar com ciência”, conta Gomes. “Uma grande parte dos produtores quer saber como podem melhorar a qualidade e a produtividade do café, então já temos alguns roteiros iniciais, até publicados com o apoio da FAPEMIG, para mostrar ao parceiro qual é o potencial do seu café”, completa.

Foto: As pesquisas realizadas pelo grupo são aplicadas diretamente nas fazendas com o objetivo de levar soluções tecnológicas e aprimoramento do café aos produtores. Créditos: Marketing “Da semente à xícara”

Em outra ponta, a professora Líbia Santos entrega trabalhos relacionados a apuração do sabor da bebida por meio da fermentação. “O fruto colhido é doce e tem uma mucilagem rica em carboidratos e proteínas. Se colocarmos esse fruto em um processo de fermentação, seja uma fermentação autoinduzida ou com as condições de processo bem controladas, o café adquire sabores e aromas surpreendentes que chegam à xícara por meio do café especial, que é mais valorizado no mercado”, explica.

Parceiros e apoiadores da ciência

Para os testes relacionados à fermentação, o grupo de pesquisa teve como aliado o cafeicultor Daniel Bruxel, representante dos cafés especiais da Casa Bruxel. “Nossa parceria com a UFU começou a partir da necessidade de aperfeiçoarmos uma técnica para a produção de café com maior qualidade. Naquela época [2019], já se falava muito sobre fermentação de café, mas não havia um protocolo para se fazer aquilo de maneira correta. Então em conversa com a UFU surgiu a ideia de fazermos alguns protocolos junto com pesquisas para se determinar as melhores maneiras de fazer esse procedimento”, conta.

Hoje, o grupo “Da semente à xícara” possui uma sistemática consistente para atender os produtores do Cerrado Mineiro desenvolvendo soluções tecnológicas para otimizar a produção de café especial. Atualmente, o projeto atende cerca de 10 cafeicultores, auxiliando-os na adoção de novas tecnologias para aperfeiçoar a qualidade do café. São cerca de 50 colaboradores que utilizam ferramentas inovadoras para entregar aos produtores eficiência e previsibilidade. 

“Ter uma equipe multidisciplinar dentro de nossa propriedade é um privilégio, porque nos agrega muito em vários processos”, conta Fernando Naimeg, um dos produtores parceiros do projeto e representante da Naimeg Cafés Especiais. Para ele, a disponibilidade de dados oferece uma visão mais abrangente sobre a produção. “Como dizem, ‘o que você não mede, não pode ser controlado’. Nessa linha, todos os experimentos que são feitos e os resultados que são apresentados nos dão segurança para tomar decisões”, completa

No caminho da inovação

A utilização de técnicas disruptivas alavancaram os trabalhos do grupo possibilitando a criação de dois produtos de sucesso: o Villa Café, um evento de consultoria sobre cafés especiais para democratização do conhecimento, e o Café Porandu, café especial criado em parceria com os produtores da região para a aplicação das pesquisas. 

O projeto também abriu espaço para a participação de jovens doutores, por meio de editais da FAPEMIG, para trabalharem com tecnologias aplicadas à produção de café. A FAPEMIG foi responsável, ainda, pelo aporte de R$450 mil aos trabalhos do grupo “Da semente à xícara”. “O apoio da FAPEMIG é fundamental para que possamos continuar expandindo nossas atividades e beneficiando mais produtores”, reforça Matheus Gomes.

O Café Porandu tem se destacado em eventos nacionais e internacionais, conectando cafeicultores a mercados especializados e ampliando o reconhecimento do café do Cerrado Mineiro no cenário global. “O nosso produto tenta tangibilizar para a sociedade o que representa o nosso projeto, ou seja, como fazemos para que esse produto de qualidade possa chegar a toda a comunidade civil. Ele tem uma parceria grande com os produtores que nos doam parte da pesquisa que fazemos nas fazendas”, explica Gomes.

O apoio da FAPEMIG permitiu, ainda, que o projeto alcançasse grandes voo, como foi o caso da participação do projeto no evento Web Summit Lisboa a convite do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O Café Porandu foi o único especial representando o Brasil em um evento que contou com mais de 70 mil pessoas. “Porandu significa ‘pesquisar’ em tupi-guarani, e essa é a essência do nosso trabalho: transformar conhecimento científico em melhorias concretas para os produtores”, destaca o professor.

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