Violão percussivo: pesquisa desenvolve didática ativa para o público

Bárbara Teixeira - 26-03-2024
1214

A prática de tocar instrumentos musicais, além de proporcionar momentos de lazer e bem-estar, pode desenvolver habilidades diversas. O violão percussivo, por exemplo, é uma prática que trabalha com os diversos sentidos e proporciona o desenvolvimento de grandes obras musicais. Esse foi o ponto de partida da pesquisa desenvolvida pelo professor e pesquisador Stanley Fernandes, da Escola de Música da Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg).

O trabalho denominado “Violão Percussivo: seleção, organização, desenvolvimento/aperfeiçoamento e trajetorização de CTMs e criação de repertório a partir de evidências” foi um dos projetos apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) em sua chamada Universal do ano de 2022. Seu objetivo é desenvolver Competências Técnico-Musicais (CTMs) do violão percussivo e registrá-las por meio de um material didático acessível a qualquer interessado. 

A prática do violão percussivo é uma forma de tocar o instrumento que reúne características do violão fingerstyle, flamenco e da música clássica contemporânea, utilizando não apenas as cordas para gerar os sons, mas todo o corpo do instrumento. Fernandes conta que, a partir de sua pesquisa de doutorado, defendida em 2020, reuniu elementos que seriam o alicerce desse projeto de pesquisa. 

Material didático desenvolvido pelo grupo Pandora. Créditos: Julia Rodrigues/FAPEMIG

Bases da didática

O trabalho de pesquisa sobre o violão percussivo vem sendo desenvolvido pelo Grupo de Pesquisas em Violão Contemporâneo da Uemg/CNPq, denominado Pandora, e se ramificou em diversas frentes: teoria, composição, ensino, construção de instrumentos, e novas perspectivas de pesquisas. O projeto de desenvolvimento da didática do instrumento é uma dessas frentes e compreende uma vontade de Fernandes de dar um retorno social para a sua tese de doutorado.

“Queremos formalizar uma didática do violão percussivo para ajudar as pessoas a tocarem. Essa é uma forma de tocar ainda muito envolta de mística: as pessoas acham interessante, mas não sabem como fazer”, destaca. A partir disso, o grupo desenvolveu uma forma de transformar a prática em material pedagógico para que as pessoas consigam aprender sozinhas. 

Os pesquisadores criaram um manual que ensina o público, mesmo sem experiência prévia com instrumentos, a ler, fazer e tocar músicas. “A pedagogia musical, como mais uma das frentes de pesquisa, foi muito importante para lançarmos os fundamentos pedagógicos, pois não queríamos um manual que fosse um simples livro de exercícios, pensamos no grande mundo por trás dele”, destaca. 

O modelo teórico utilizado para desenvolvimento do material didático foi o PACT, abreviação do inglês para “Percussive Actant Tri-Vectorial Model”, que pode ser traduzido como “Modelo trivetorial do agente percurssivo”. “Ele é trivetorial porque a gente consegue identificar cada ocorrência percussiva a partir do cruzamento de três parâmetros, que são a parte do violão que está sendo acionada, a ação que o instrumentista está desempenhando e a parte do violonista que está interagindo com o violão. Então, o recurso percussivo – a unidade básica do tocar percussivo – a gente considera que ele é uma propriedade não do violão e nem do violonista, mas sim de ambos, congregados naquele num composto”, explica Fernandes. 

Ou seja, “O agente percussivo é essa entidade formada por violonista e violão e que tem como uma das suas propriedades os recursos percussivos”, complementa.  A partir desse estudo, o pesquisador conta que se torna possível isolar cada ocorrência percussiva e dar nome a elas, na forma de códigos. “Nós conseguimos reconhecer e reproduzir cada evento mínimo do evento percussivo. [...] Então cada parte do violão tem um código, cada parte do corpo tem um código, cada ação tem código”.

Alguns dos bolsistas do grupo se encarregaram de identificar os recursos percussivos nas obras musicais e catalogá-los. Foi através desse trabalho minucioso que eles conseguiram trajetorizar as competências do tocar percussivo num manual para os iniciantes. “Como é um material para iniciantes, nós precisávamos de notações que fossem fáceis e que não intimidassem as pessoas. Então inventamos várias notações mais amigáveis para que qualquer pessoa conseguisse fazer música desde o início do processo”.

“Esse manual tem como plano de fundo um pensamento humanista, materializado em uma pedagogia ativa. Ou seja, ele é um manual para o autotreinamento que pressupõe que cada pessoa vai seguir o seu próprio caminho”, explica o professor.

Superando desafios

Paulo Freire (1987) descreve essa Metodologia Ativa como um processo em que o aluno não é apenas um receptor de informações, mas é parte ativa e colaborativa no processo de aprendizagem. Como ele destaca na obra “Educação como prática da liberdade”, “o educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa. Ambos, assim, se tornam sujeitos do processo em que crescem juntos e em que os ‘argumentos de autoridade’ já não valem. Em que, para ser-se, funcionalmente, autoridade, se necessita de estar sendo com as liberdades e não contra elas [...]”

Levando para o lado musical da aprendizagem, a pesquisa buscou como fontes de inspiração as teorias de Hans Koellreuter, Lucy Green, Cecília Cavalieri, Teodomiro Goulart, Murray Schaefer, que trabalham o aprendizado instrumentista com liberdade. Essa metodologia de aprendizado impulsiona o estudante e promover o ritmo e a direção da sua educação, tirando-o da condição de mero receptor. “Ele é o agente responsável pela construção do próprio conhecimento. Esse conhecimento vai ser construído através da tensão produtiva que existe entre os desafios que a gente está propondo e os elementos subjetivos que esse sujeito traz para o processo dele”, destaca Stanley Fernandes. 

Apesar de ser um manual, o pesquisador afirma que cada pessoa faz o seu processo de aprendizagem, uma vez que não há uma ordem linear a ser seguida. “Cada pessoa que pegar esse manual vai ter uma trajetória diferente e única. Ele não tem uma ordem certa, o que ele possui são unidades temáticas que a pessoa pode fazer na ordem que ela quiser. Além disso, a gente propõe uma série de atividades dentro das nossas unidades temáticas que vão trabalhar as competências técnico-musicais (CTMs) por meio de desafios que a pessoa tem que superar a sua própria maneira”, explica.

Demanda Universal

O projeto de pesquisa sobre o violão percussivo foi o primeiro a ser submetido pelo grupo Pandora à FAPEMIG, por meio da chamada Universal. De acordo com Fernandes, essa foi uma oportunidade para desenvolver as teorias e devolver à sociedade parte do estudo que produziu durante o seu doutorado. “O fato de ter alguém querendo financiar uma pesquisa te motiva a pensar alguma coisa, para propor. Então uma forma que encontrei foi justamente formalizar uma didática que ajudasse as pessoas a tocarem”, comenta.

A Demanda Universal é uma chamada regular da FAPEMIG que apoia financeiramente pesquisas em todas as áreas do conhecimento. Em 2023, a Chamada Universal investiu mais de R$ 39,7 milhões em 292 projetos de pesquisa, desenvolvidos nas universidades e centros de pesquisa do Estado. Neste ano, a chamada, que recebe propostas até o dia 3 de abril, vai investir valor ainda maior nos projetos aprovados: R$ 45 milhões.